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  • Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu

MIQCB realiza avaliação estratégica para fortalecimento das ações e lutas


Foto: Ana Mendes/Acervo MIQCB


Em meados de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a existência de uma pandemia causada pelo novo Coronavírus (Covid-19) que se espalhava ao redor do mundo. Sem vacina e ainda diante das primeiras análises sobre o vírus e suas consequências, as medidas mais efetivas se tornaram o uso de máscaras pra diminuir a disseminação de gotículas, a higienização das mãos, uso de álcool em gel, distanciamento e isolamento social.


Todos nós sentimos impactos físicos, psicológicos, econômicos e sociais diante da nova realidade. Tendo ainda que lidar com o negacionismo do Presidente da República que dificultou as políticas públicas de saúde emergenciais, criticou governadores de estado, criou situações de aglomeração, desrespeitou as vítimas da Covid-19 e espalhou fakenews, inclusive sobre uso indiscriminado de medicamentos sem comprovação científica. Estamos em 2021, já são mais de 250 mil óbitos e o que temos é um plano de vacinação falho que não supre as necessidades do país. Conjuntura essa que se soma ainda com o desmonte das instituições de reforma agrária, pelos casos de grilagem de terra, cercamento de território, ameaças à vida e a sociobiodiversidade.


Mesmo diante dos desafios e temores colocados por conta da pandemia e o agravamento da crise política e humanitária, é preciso caminhar. É preciso esperançar e continuar na luta pelos direitos territoriais e pelo babaçu livre, pelo fortalecimento do modo de vida das quebradeiras e dos demais povos e comunidades tradicionais. Pensando nisso, durante os meses de janeiro e fevereiro de 2021, o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu com suas coordenadoras, assessoriais regionais e da interestadual, estiveram reunidas de forma híbrida (presencial e online) para um momento de avaliação do ano de 2020 e para o planejamento das ações estratégicas e de fortalecimento do movimento para o presente ano.


Assessorias e Coordenação da Regional Tocantins reunidas para o planejamento 2021


As rodadas de avaliação se deram em duas fases: primeiro, um momento com cada uma das regionais, e depois tivemos dois dias de reunião junto a interestadual, ambas com aplicação de metodologia e a moderação da consultora Silvana Bastos. Com o isolamento e distanciamento social, muitas atividades pensadas para 2020 não puderam ser realizadas junto as bases e articulações, entretanto isso não significou a paralisação das atividades.


“O isolamento social causou medo e pânico diante da situação onde tudo parou de repente, a vinda das quebradeiras para a feira semanal na cidade, para venda dos seus produtos e tirar a renda para o sustento da família - até a quebra do coco em mutirão teve que cessar.” relatam coordenadoras da regional Piauí.

Durante seus relatos, a regional Piauí destacou que com a chegada da pandemia, o movimento se preocupou em acompanhar de perto os casos nas comunidades, levando as informações sobre os cuidados e protocolo de segurança. Apesar disso, a regional buscou construir ações solidárias, soluções criativas e solicitar as políticas públicas pra melhorar a situação difícil das comunidades, buscando apoio das secretarias municipais de saúde.


Junto a Fundação Banco do Brasil, ActionAid e Fundação Ford, a regional aplicou R$ 355 mil em ações de contenção e de garantia de segurança social e alimentar, como a compra de produtos da agricultura familiar, gerando rendas para as famílias, que integraram a doação de cestas básicas, máscaras, kits de higiene em 10 municípios do território dos Cocais. As quebradeiras da regional Mearim também conseguiram articular junto a ASW, ActionAid e DGM, a entrega de cestas e kits de higiene a um total de 296 famílias beneficiadas. Ações como essas também ocorreram nas demais regionais.


Na Baixada, se destacou o acesso à política de preço mínimo do babaçu, em que muitas quebradeiras foram beneficiadas, e mesmo diante de um ano de pandemia, os grupos produtivos da regional cumpriram com suas demandas, havendo um fortalecimento do associativismo, sua comercialização, bem como se tornou ainda mais notório a importância dos alimentos agroecológicos para a segurança alimentar do campo e da cidade em momentos de crise.



Ação de entrega de cestas nas comunidades de quebradeiras de coco babaçu na regional Mearim, no Maranhão.

Feira agroecológica realizada no Dia da Quebradeira de Coco Babaçu no Tocantins


Outra avaliação é que, mesmo com o distanciamento, pudemos nos aproximar utilizando as tecnologias e virtualidades. Reuniões online, rodas de conversa, seminários e lives foram as formas que encontramos para dar continuidade as articulações políticas, jurídicas e de elos entre as quebradeiras, instituições, órgãos e outras entidades de apoio aos direitos territoriais. Houve diversas reuniões para debates e estudos de legislações sobre o babaçu livre, direito à Consulta Prévia, MATOPIBA, CAR ambiental, regularização fundiária, acompanhamento de áreas de conflito, denúncias de desmatamento e extração ilegal de madeira, denúncias e assistência contra violência a mulher, audiências públicas, participação em Mesa Quilombola e articulação para contrapor minuta de lei de terras em formulação pelo estado do Maranhão, por exemplo.


Além disso, fortalecemos nossas redes como a Marcha das Margaridas, ATA, CNS, Rede Bico, STTR, APA-TO, FETAEMA, ASSEMA e outras articulações pelas demais regionais. Conseguimos também dar visibilidade a atuação política do MIQCB por meio da promoção de algumas lives e entrevistas. “Passamos a nos reunir de forma remota com as organizações com quem desenvolvemos atividades. As reuniões com frequência pelos aplicativos online estão servindo como uma capacitação”, relata o grupo da Regional Imperatriz. “Aprendemos a usar melhor a internet e fazer reuniões online. Contamos com a ajuda dos netos pra isso” declararam as coordenadoras do Pará, deixando visível ainda mais a importância da participação e inclusão da juventude dentro de nossas novas metodologias de trabalho, além da capacitação das mulheres quebradeiras de coco as acessibilidades virtuais, mesmo diante dos desafios de conectividade e ausência de internet em seus territórios.


Reunião de planejamento da regional Piauí


Por fim, a culminância de todo o processo de elaboração das ações das regionais para o ano de 2021, ocorreu em na reunião de planejamento de atividades da interestadual junto as mulheres quebradeiras de coco da Coordenação Executiva, das Coordenações Regionais e as assessorias técnicas, em dois dias de avaliação, diálogo e expectativas para o futuro. Tivemos também um momento de participação de representantes da Fundação Ford, com a Erika Yamada, e da ActionAid, com a Ana Paula Brandão.


A programação foi organizada para debates que passaram pela avaliação dos desafios de 2020, a sobre a atuação do Movimento para os próximos anos, prioridades institucionais, análise dos projetos e organização da agenda institucional do MIQCB, com o objetivo de fortalecer as ações do MIQCB com fins da garantir os direitos das quebradeiras de coco babaçu como povos e comunidades tradicionais.


Ao final, nossa Coordenadora Geral e liderança quebradeira de coco babaçu, Maria Alaídes, nos deixou o seguinte verso, e que ele possam nos orientar aos caminhos de força, luta e principalmente, de cura! Avancemos!


“Oh mulher te organiza e abraça esta luta,
Oh mulher tu verás uma nova geração,
Vem com garra, vigor e energia,
Junto as outras com muita euforia,
Muda o rumo da nossa Nação.”




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