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Romaria Padre Josimo contou com o envolvimento das quebradeiras de Imperatriz e Tocantins


A Romaria Padre Josimo, que aconteceu nos dias 18 e 19 de maio, começou para as quebradeiras de coco babaçu da região tocantina meses antes. Envolvidas na organização do evento, compareceram nas reuniões de planejamento e contribuíram com a dinâmica da realização. Tanto a Regional Imperatriz como Tocantins contribuíram com a alimentação, com mais de trinta quilos foram disponibilizados, além do apoio cultural e de cobertura em comunicação, inclusos aqui até mesmo o financiamento de materiais gráficos impressos.

Não seria diferente, uma vez que as quebradeiras desenvolveram sua aptidão pela luta com a contribuição de Josimo. Quando vivo, o padre ensinava sobre a mobilização e defesa da terra para quem de fato produz. Contra a expropriação e exploração dos trabalhadores, ele se movimentava entre a região do Bico do Papagaio, no Tocantins, e no sul do Maranhão, próximo a Imperatriz.

Seu assassinato provocou intenso levante dos trabalhadores rurais, e o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) é uma das múltiplas organizações civis que são sementes de Josimo, como relatou Francisca Pereira Vieira, quebradeira de coco babaçu, trabalhadora rural e coordenadora de base da Regional Tocantins, “o sangue dele virou semente”.

A vigília da romaria estava marcada para iniciar no sábado, a partir das 14h. No dia anterior, a equipe do MIQCB estava a postos para organizar a experiência gustativa da Ciranda Agroecológica, em que cada entidade articulada pela atividade do cultivo e coleta consciente poderia oferecer uma experiência aos visitantes. As quebradeiras também tinham uma sala exclusiva para proporcionar espaço de partilha, seja de informações ou de comercialização.

No sábado, desde cedo as mulheres se organizavam para recepcionar as companheiras que chegariam de longe. Na sala temática elas se reuniam em reencontros de luta. A Paróquia Cristo Salvador, em Imperatriz, estava decorada e preparada para receber as mais de 1800 pessoas registradas nas caravanas.

Logo que o sol cruzou o meio dia, ônibus, vans, carros, motos e pedestres preenchiam as ruas do entorno da paróquia e mais pessoas ocupavam o pátio repleto de cadeiras viradas para o palco, essa e outras atrações como exposições, atividades, degustações, feiras e até cinema eram disponibilizados.

O MIQCB abriu a programação de exibição do cinema da Romaria com o documentário “Onde tem mulher, tem floresta em pé”, uma produção que conta a história das guardiãs do babaçu nos quatro estados de atuação: Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins. A assessora técnica e coordenadora de projetos do Movimento Sandra Regina destacou a importância de preservar as palmeiras e convidou as quebradeiras de coco presentes para se apresentarem ao público.

Sob aplausos, as mulheres se reuniram a frente para reforçar sua luta. A coordenadora de base Francisca falou ao público sobre a vida de uma mulher rural e agradeceu os ensinamentos de Josimo. “Outras pessoas contribuíram com a luta pela organização dos trabalhadores rurais, mas foi ele quem teve a sabedoria e paciência que nós precisávamos. O amor dele por nós ensinou até mesmo seus algozes, que ouvia o padre cantar em resposta às suas ameaças”.

Durante a tarde, na Ciranda de Experiência da Agroecologia, as quebradeiras de coco serviam bolo de mesocarpo e mostravam o processo de acabamento do coco para se tornar artesanato. A estudante Milena Caetano da Silva visitou o espaço e disse ter gostado bastante da ideia de colocar os produtos da terra em exposição. “A gente vai ao mercado e vê alguns produtos desses lá, mas não imagina o processo de se cultivar. Aqui deu pra ter uma ideia de como é o trabalho diário de plantar e colher”.

A TV Difusora, consorciada do SBT no Maranhão, estava cobrindo as atividades para veicular uma reportagem sobre a Romaria. As quebradeiras não ficaram de fora, Dona Francisca voltou ao protagonismo de compartilhar sua experiência ao lado do Padre Josimo. Na entrevista, ela relembrou como a vida era mais difícil e perigosa, “ele não achava que iria morrer, nós queríamos acompanhar ele porque a gente sabia quem é que estava perseguindo ele, mas ele não quis. No dia seguinte veio a notícia”, relatou ela com lágrimas nos olhos.

Ao final da tarde, depois do encerramento das programações diurnas, a igreja começou as apresentações culturais no palco. A equipe de louvor chamou a atenção do público com músicas que Josimo costumava cantar. Aos poucos, as cadeiras vermelhas no pátio abraçavam uma multidão que louvava em conjunto. Hora de levantar acampamento.

Em poucos minutos os produtos das quebradeiras de coco foram transferidos da sala do MIQCB para o pátio. As mesas dobráveis da CIMQCB logo se tornam feira ao ar livre e artesanatos, sabonetes, azeites e óleos ocupam a curiosidade de quem transitava por ali.

As quebradeiras também foram ao palco. A coordenadora Francisca se juntou à quebradeira Maria Gerusa Rocha para cantar Xambioá, de Itamar Correia. durante toda a noite de celebração, as quebradeiras estiveram no palco, ora para recitar poesias, ora para proferir palavras de ordem. Maria Senhora Carvalho, por exemplo, fez um resgate histórico sobre a luta.

“Nós já lutávamos antes do Josimo chegar, mas os ensinamentos dele ficaram para a história. A gente já queria poder produzir sem medo, ter uma vida digna. A gente sabia que era o justo. Do dia que ele chegou até seu sangue ser derramado nós nos aprimoramos, aprendemos que conseguimos nos mobilizar, que não precisamos lutar só”, contou Maria Senhora.

Durante as apresentações, o grupo de teatro da Pastoral Jovem encenou o assassinato de Josimo, o que fez Francisca se emocionar muito. Com olhos marejados ela declarou, “não fosse a ganância era para ele tá vivo, aqui entre nós”. Outro momento marcante foi a oração, “sentir todas essas pessoas emanando sua fé é arrepiante, principalmente em defesa de um propósito tão justo”, declarou a participante Selma Araujo Lima, participante e moradora das proximidades da Paróquia onde aconteceu a vigília.

Além de ter sido a apresentadora das atrações da celebração, Rosalva Gomes, artesã do babaçu e assessora da Cooperativa Interestadual das Mulheres Quebradeiras de Coco Babaçu (CIMQCB), também encerrou a noite com uma canção autoral. “Um padre menino” narra a forma pacífica com que Josimo encarava a vida, até mesmo quando ameaçado, ao invés de se defender ele cantava. Sua voz era a sua proteção.

A vigília da madrugada ficou sob tutela da juventude católica. Dada certa hora se via bocejos, cochiladas e até algumas companheiras aconchegadas na sala do MIQCB.

Foi só no raiar do dia que as atividades foram retomadas. O sol saia por detrás do palco enquanto a missa era iniciada. A música aproximava o povo, o padre lançava preces e o público respondia. Essa orquestra da fé se repetia até se aproximar do momento da caminhada.

A caminhada foi tomando forma na porta da igreja. Rosalva Gomes subiu ao trio para contribuir com a intermediação e apresentação das pautas e bandeiras defendidas pelos romeiros e romeiras. As quebradeiras de coco logo se misturaram pelo meio do povo. Até a balsa houveram duas paradas para intervenção, as quebradeiras ecoaram suas vozes em ambas as ocasiões.

A quebradeira Maria Gerusa Rocha abriu os pronunciamentos com a história e propósito de luta do Padre Josimo. “Desde que ele chegou ele falava que precisávamos nos organizar. Lembro ainda hoje de sua voz cantando: ‘Põe a semente na terra, não será em vão’. Ele queria um mundo fraterno”.

“Como será o nosso futuro?”, perguntou a assessora da Regional Tocantins do MIQCB Elizete Araújo se pronunciou também como GT das Juventudes Rurais do Bico, ao reforçar a necessidade de preservar o meio ambiente.”Nós aprendemos a defender a nossa terra com Josimo, queremos viver nela em paz, por isso continuamos a luta”.

Depois da balsa, os romeiros e romeiras seguiram em marcha para o local de calvário de Padre Josimo. Em frente à Cúria Diocesana de Imperatriz, nas escadarias que eram de madeira, hoje jaz escadas de pavimento e placa de homenagem ao homem que teve sua vida arrebatada pela ganância dos grandes proprietários de terras.

“Pelas mãos da maldade humana a vida de Josimo foi ceifada, mas pelas mãos calejadas do trabalhador ele segue vivo em cada um de nós”, declarou Espedita dos Santos Pereira. De frente para a Cúria ela estendeu seus braços em prece pela vida e luta do Padre, em oração ela clamou “esteja em paz de onde estiver”.

A Romaria é uma organização popular, mas é primordialmente um evento realizado pela igreja católica. A edição de 2024 é a primeira presencial pós pandemia. O organizador indicado pela igreja, o frei Xavier Plassat, disse que recebeu essa tarefa com alegria, principalmente porque é uma realização que mexe com a própria origem de sua vocação.

“Essa peregrinação tem dimensão muito forte, ela me lembra a motivação principal da minha vida. Além disso, percebi um envolvimento maior da juventude, uma vontade de conhecer e se inspirar. Precisamos ser exemplos positivos para eles, se perguntando o que Jesus faria diante da nossa realidade, assim como fez Josimo em seu tempo. Qual seria a forma que eles nos ajudariam a encarar nossos desafios, de reinventar a história segundo a fidelidade do que foi vivido pelos mártires”.



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